No Dia Nacional de Combate ao Fumo, o Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) destaca o papel decisivo da Odontologia na prevenção e no diagnóstico do câncer de boca. Com o aumento alarmante do uso de cigarros eletrônicos (vapes) e os riscos já amplamente conhecidos do tabagismo convencional, especialistas da autarquia alertam a população e a classe odontológica para os impactos severos dessas substâncias na saúde bucal.
A armadilha dos eletrônicos e os danos celulares
A falsa premissa de que os vapes “fazem menos mal” tem impulsionado o consumo, especialmente entre os mais jovens. A Dra. Desiree Rosa Cavalcanti, membro da Câmara Técnica de Estomatologia do CROSP, desmistifica a ideia de que esses dispositivos geram um vapor inofensivo.
“O aerossol entra em contato direto e repetido com a mucosa bucal e pode conter nicotina, substâncias irritantes, compostos tóxicos, partículas metálicas e produtos gerados pelo aquecimento dos líquidos”. Na prática clínica, já são observadas alterações como ressecamento da boca, ardor, irritação da mucosa, inflamação gengival e lesões brancas ou vermelhas em usuários de cigarros eletrônicos.
Sob a perspectiva celular, os danos são profundos. O Dr. Alan Roger dos Santos Silva, membro da Câmara Técnica de Patologia Oral e Maxilofacial do CROSP, explica que os produtos derivados do tabaco expõem a mucosa a diversas substâncias cancerígenas. “Essas substâncias podem penetrar nas células, provocar estresse oxidativo, inflamação crônica e danos ao DNA”. Com a repetição dessa exposição, células podem acumular alterações genéticas e evoluir para o carcinoma espinocelular, o tipo mais frequente de câncer de boca.
O perigo da sinergia entre tabaco e álcool
O risco oncológico cresce substancialmente quando o tabagismo é associado ao consumo de bebidas alcoólicas. Tabaco e álcool atuam de maneira sinérgica no organismo. O álcool é convertido em acetaldeído, um composto cancerígeno, e aumenta a permeabilidade da mucosa, o que facilita a penetração dos agentes tóxicos do fumo nos tecidos.
“Para fins de prevenção do câncer, não existe um nível de consumo de bebida alcoólica considerado totalmente seguro, e o risco tende a aumentar conforme a quantidade e a duração da exposição”, alerta o Dr. Alan Roger.
Além do tabaco: a atenção ao HPV
Ampliando a análise sobre os fatores de risco, o cenário epidemiológico tem apresentado mudanças que exigem atenção. O Dr. Marcelo Marcucci Filho, membro da Comissão de Odontologia Hospitalar do CROSP, aponta que o Papilomavírus Humano (HPV) surge como um possível ator envolvido em casos de tumores de boca, inclusive em pacientes que não estão expostos aos efeitos crônicos do fumo e do álcool.
“Embora já esteja bem estabelecida a relação do HPV como um subtipo de tumor de orofaringe, ainda não temos dados consolidados sobre a real participação na carcinogênese das lesões de boca. Entretanto, o recente aumento de casos em pacientes jovens acende um alerta sobre este novo cenário epidemiológico”, pontua o especialista. Esse cenário reforça a necessidade de o cirurgião-dentista valorizar lesões suspeitas nessa população, além de atuar ativamente na orientação sobre a importância da vacinação e da educação sexual.
O alerta silencioso e a importância da biópsia
O câncer de boca costuma ser indolor em suas fases iniciais, exigindo atenção redobrada. O paciente deve observar durante a higiene bucal qualquer alteração nova ou persistente, como:
- Ferida ou ulceração que não cicatriza em até 15 dias;
- Manchas brancas que não saem quando raspadas, ou manchas vermelhas;
- Endurecimento ou caroço na língua, bochecha, lábio ou assoalho da boca;
- Sangramento sem causa aparente;
- Aumento de volume ou nódulo no pescoço.
Contudo, o autoexame não substitui a avaliação do cirurgião-dentista, uma vez que nem toda lesão potencialmente maligna é facilmente reconhecida por pessoas sem treinamento clínico.
Ao identificar uma lesão suspeita no consultório, a biópsia é o procedimento fundamental. “A análise histopatológica é o método de referência para confirmar ou afastar diagnósticos como displasia epitelial, câncer de boca e diversas outras doenças”, enfatiza o Dr. Alan Roger.
O papel estratégico do clínico geral e o fator tempo
O cirurgião-dentista generalista ocupa uma posição estratégica na linha de frente do combate ao câncer de boca, pois examina os tecidos expostos ao tabaco com grande frequência. O manejo do paciente fumante, contudo, deve fugir de posturas punitivas. “Uma comunicação baseada em escuta, vínculo e decisão compartilhada costuma ser mais produtiva do que ameaças ou julgamentos”, recomenda a Dra. Desiree.
O tempo é o maior aliado do paciente. Diagnósticos precoces e em estágio localizado apresentam sobrevida relativa em cinco anos próxima a
89%
, enquanto tumores com disseminação à distância reduzem essa taxa para cerca de
20%
“O diagnóstico precoce não significa apenas aumentar a chance de sobreviver. Significa também reduzir mutilações, sequelas funcionais, dor, custos, tempo de tratamento e impacto emocional”, conclui a Dra. Desiree. Cada consulta odontológica representa uma oportunidade vital de prevenção e cuidado.








